DELÍRIO PERSECUTÓRIO

Por Ulysses Paulino de Albuquerque

 

Escrevi sobre demônios e cientistas neste blog, e agora quero dar nome a um tipo de demônio muito insidioso: o chamado delírio persecutório. Existem vários tipos de transtornos delirantes, e a medicina vem nos últimos anos fazendo um esforço para entender melhor cada um deles. Os delírios podem se manifestar de diferentes formas, e são de uma etiologia que gera muita controvérsia entre os cientistas. Em minha opinião de curioso, um traço que parece marcante neste tipo de delírio em especial, é o mecanismo de autodefesa desenvolvido pelo individuo que o faz responsabilizar fatores externos por seus infortúnios. Mas, alto lá antes de sair rotulando seus vizinhos e colegas de trabalho! O delírio persecutório é uma psicopatologia que se manifesta de forma recorrente e a tal ponto que afeta não só a qualidade de vida do delirante, mas notadamente a qualidade de seus relacionamentos pessoais.

A palavra chave para a questão é o mecanismo de autodefesa. Ao longo de nossas vidas, vamos nos construindo, fortificados pelas experiências, ou combalidos por elas mesmas. Sair vitorioso das experiências que moldam o nosso caráter e estruturam a nossa forma de ver a vida, é algo desejável. Assim, o delírio persecutório também se manifesta, a meu ver, como aquilo que André Kukla, professor da Universidade de Toronto, chama de “Armadilhas Mentais”. “Armadilhas mentais são pensamentos corriqueiros que perturbam nosso bem-estar, desperdiçam nosso tempo e esgotam nossa energia sem realizar nada de valor para nós ou para qualquer outra pessoa”, fala Kukla. A primeira é a persistência que reside em insistir em atividades que já perderam a importância ou não fazem mais sentido, mesmo que nos desagradem. A amplificação é a armadilha que nos faz trabalhar demais para atingir um objetivo. A amplificação reside no exagero, na aplicação de uma dose inadequada de trabalho para uma determinada atividade. Uma armadilha que eu acho interessante é a chamada fixação e que acomete muitos cientistas e estudantes em suas crises de criatividade. É, por exemplo, fixar-se em redigir um parágrafo, mesmo sem inspiração. A pessoa congela e não consegue escrever, nem parte para outra atividade. O contrário da fixação é a reversão, caracterizada por um gasto tremendo de energia para reverter uma situação que não pode ser mudada, é o que Kukla chama da síndrome do “deveria”.

Pois bem, chegamos agora à antecipação. A antecipação consiste em começar cedo demais uma atividade, ou antecipar acontecimentos que não são previsíveis. A resistência é outra armadilha que provoca muito sofrimento. Resistimos às mudanças, mesmo que possam traduzir-se em algo benéfico. Kukla traz o exemplo de uma pessoa que está escrevendo um relatório, mas precisa ir ao supermercado. O raciocínio está fluindo de forma tão veloz, as ideias bailam na mente, que resistimos em parar o serviço para ir ao supermercado. Só que uma tarefa é mais urgente do que a outra, pois o mercado tem hora determinada para fechar. Por fim, relatório concluído, pessoa esbaforida, mercado fechado e a frustração que acompanha o fato. O adiamento é outra armadilha. Às vezes temos pequenas atividades para realizar e vamos postergando, arranjando outros pequenos afazeres apenas para não iniciar aquela atividade. Por fim, vem a angústia do prazo findo, da cobrança e da pressão que pode obliterar completamente a criatividade. Já estamos chegando ao fim das chamadas “armadilhas mentais” com a chamada divisão. Na divisão, procuramos dar conta de duas coisas ao mesmo tempo. Algumas pessoas até que conseguem processar duas atividades, mas no geral isso consome muito “ATP cerebral”. Então, será que conseguimos dar de fato atenção conscientemente a duas coisas ao mesmo tempo, como desafia Kukla? Podemos digitar uma mensagem e entravar uma conversa ao mesmo tempo, mas é muito provável que voltemos para o nosso interlocutor pedindo para que ele repita algum (ou vários) trecho que não conseguimos captar. Chegamos à aceleração, ou seja, trabalhar a uma velocidade superior do que a necessária para executar uma tarefa. Isso normalmente pode ser motivado pela vontade de concluir logo uma atividade, mas nesse ímpeto podemos ter que voltar várias vezes para refazer algo que não ficou bem feito. Por fim, a regulamentação e a formulação. A primeira, segundo Kukla, “é a armadilha de fazer prescrições inúteis”, pensar de modo supérfluo, já a segunda “é a armadilha de dizer ou pensar indiscriminadamente algo só porque parece ser verdade”.

Bem, simplifiquei em poucas linhas, o que André Kukla desenvolve em 164 páginas. Por isso o leitor está convidado a conhecer um pouco mais dessas armadilhas. Mas, agora, volto para a minha questão principal: o delírio persecutório. O delírio persecutório guarda toda relação com essas armadilhas mentais. Vamos ao exemplo, neste caso, o delirante persiste na crença de que é perseguido por colegas (sabotagem de experimentos, por exemplo), professores e até amigos. Em tudo vê má vontade e má fé dos outros. Amplifica uma situação ao máximo, faz uma verdadeira tempestade em um copo com água. Um comentário amistoso pode, em sua cabeça, se transformar em uma ofensa inadmissível, fixando-se em situações de pouca relevância ou até mesmo nenhuma. Por mais que tente dar um passo adiante, esquecer uma mágoa (real ou imaginária) reverte sempre ao estado original, vendo-se na mira de inimigos (reais ou imaginários). Antecipa ofensas, gasta em vão energia para defender-se de algo que não foi atacado. Resiste a qualquer tentativa de mudar, de perceber-se como agente de sua própria vida, insistindo em trilhar as mesmas sendas… adiando sempre as oportunidades de avançar no confronto com seus próprios fantasmas (reais ou imaginários). Divide seu tempo entre se achar perseguido e ser perseguidor. Acelera no revide, quando o ideal seria agir mais tranquilamente e pensar cuidadosamente na situação em que supostamente está envolvido. E, por fim, regulamenta seu comportamento agindo no impulso de defender-se de perigos (reais ou imaginários), e formula seus ataques contra as pessoas com base em suas teorias de conspiração e perseguição, porque as crês verdadeiras.

No final de tudo, por trás dos delírios, ou das armadilhas, existem apenas pessoas sofrendo (umas mais do que as outras) ou querendo acertar para viver melhor…

Referência

Kukla, André. Armadilhas mentais – como se livrar daqueles pensamentos que só esgotam sua energia. São Paulo: Editora Gente, 2007.

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  1. Milena
    30 de junho de 2011 às 12:23

    Professor,

    Excelente texto. Estou passando pela “fixação” e “aceleração”. Mas o Kukla diz como se livrar disso?

  2. Rosemary Sousa
    8 de julho de 2011 às 21:26

    Acredito que as “armadinhas mentais” de Kukla têm vários resultados, bons e ruins. Concordo que algumas dessas armadilhas (por exemplo, adiamento) podem ser consideradas “delírios persecutórios”, mas outras (antecipação) podem nos ajudar, e muito, depende da intensidade com que conduzimos nos pensamentos e ações.

  3. Ednilza
    25 de fevereiro de 2013 às 0:43

    Caramba profe!!!
    …estou nessa reflexão…

  4. flavio morais leite
    2 de junho de 2013 às 1:37

    excelente materia,que exorcize a mente de pessoas que sofram dessa sindrome.

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